Sinais em Diagnóstico por Imagem: fenômeno de vácuo 

Marcello H. Nogueira Barbosa Sinais em diagnóstico por imagem: fenômeno de vácuo
Signals in imaging diagnosis: vacuum phenomenon

Médico radiologista do Centro de Diagnóstico por Imagem do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP. Av. Bandeirantes, 3900. Campus Universitário - Ribeirão Preto - SP - CEP 14048-900

     



O fenômeno de vácuo é conseqüente à formação de coleções radiolucentes correspondendo à presença de gás, principalmente nitrogênio. Esse gás é proveniente dos tecidos adjacentes devido à formação de pressão negativa.
   É um achado freqüente na coluna vertebral em geral ocorrendo no disco intervertebral (Fig.1). Com menor freqüência pode aparecer no interior do canal vertebral, no corpo vertebral, articulações zigoapofisárias e nos tecidos moles(1).

  

Figura 1: Radiografia em perfil mostrando fenômeno de vácuo intradiscal(A). Incidência oblíqua confirmando a localização do material com densidade gasosa (B)


   Na degeneração discal, o fenômeno de vácuo ocorre no interior de fissuras do núcleo pulposo, o que explica a configuração linear das áreas radiolucentes, às vezes com aspecto ramificado. Pode aparecer na região central do disco, ou próximo ao platô vertebral, e até estender-se para o ânulo fibroso. É possível encontrar coleções gasosas intradiscais associadas ao deslocamento ou à herniação do disco intervertebral (Fig. 2). No caso dos nódulos cartilaginosos ou de Schmorl, que representam deslocamento do disco através da placa cartilaginosa terminal do corpo vertebral, a coleção de gás pode preencher fissuras com componente vertical, atingindo o osso subcondral. Por outro lado, a observação de gás no interior do canal vertebral adjacente a um disco intervertebral degenerado é um forte indicador de hérnia de disco intracanal. Há relato de gás no disco intervertebral e simultaneamente nos tecidos retroperitoneais adjcentes2. O sinal do fenômeno de vácuo é variável com as alterações do grau de flexão e de extensão da coluna vertebral, podendo ser evidenciada apenas na extensão.

  

Figura 2: Tomografia computadorizada (corte axial) mostrando fenômeno de vácuo discal associado à hérnea de disco póstero-mediana (A). Corte axial mais distal que evidencia a migração caudal do material discal (B)



   O sinal de fenômeno de vácuo no interior do corpo vertebral (Fig. 3) é muito sugestivo, embora não específico, de osteonecrose com colapso do corpo vertebral, principalmente em pacientes fazendo uso de corticosteroides3. Se existe colapso do corpo vertebral devido a osteonecrose pode ocorrer a formação de uma fenda ou cavitação no interior do corpo vertebral, na qual é possível o acumulo de gás com a formação do fenômeno de vácuo na presença de pressões negativas. Se o paciente adota posição supina durante um período prolongado de tempo pode ser identificado conteúdo líquido nessas fendas ao invés da coleção gasosa4. Esse aspecto é especialmente importante na correlação com imagens de ressonância magnética.

  

Figura 3: Fenômeno de vácuo intravertebral, em geral associado a osteonecrose do corpo vertebral. Observar a esclerose e o colapso do corpo vertebral nesse caso (A). Corte axial de TC confirmando a localização do gás (B)


   Percebe-se que o fenômeno de vácuo desfavorece as hipóteses de infecção e de malignidade. Raramente pode haver material com densidade de gás no interior do disco intervertebral ou do corpo vertebral na vigência de infecção por organismos formadores de gás. O padrão e a distribuição do gás encontrados em tais casos é diferente, observando-se várias coleções gasosas arredondadas e pequenas, visto que o mecanismo de formação do gás nesses casos não é o mesmo, presumivelmente com aumento da pressão local.
   A presença de gás pode ocorrer esporadicamente em uma articulação zigoapofisária, particularmente na região lombar e relacionada a osteoartrose. Quando há um cisto sinovial dessas articulações, o material gasoso pode se estender da articulação para o cisto (Fig. 4).



Figura 4: Gás originado da articulação zigoapofisaria, preenchendo cisto sinovial
           


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Resnick D, Niwayama G. Diagnosis of bone and joint disorders. 3rd ed. Philadelphia: Saunders, 1995. Degenerative disease of the spine; p.1372-462.
2. Beers GJ, Carter AP, Leiter B, Shapiro JH. CT detection of retroperitoneal gas associated with gas in intervertebral
  3. Maldague BE, Noel HM, Malghem JJ. The intravertebral vacuum cleft: a sign of ischemic vertebral collapse. Radiology 1978; 129:23-29.
4. Malghem J, Maldague B, Labaisse MA, et al. Intravertebral vacuum cleft: changes in content after supine positioning. Radiology 1993; 187:483-7.
  5. Spencer RR, Jahnke RW, Hardy TL. Dissection of gas into an intraspinal synovial cyst from contiguous vacuum facet. J Comput Assit Romogr 1983; 7:886-8. disks. J Comput Assist Tomogr 1984; 8:232-6.